Em Algum lugar do Futuro !

 Brasília, 1º de janeiro de 2039.


Nikolas Ferreira ajeitou a gravata diante do espelho.


O terno azul-marinho estava impecável. Na lapela, dois pequenos broches: a bandeira dos Estados Unidos do Brasil e, logo abaixo, uma cruz dourada.


— Está bom? — perguntou ao assessor.


— Presidencial — respondeu o rapaz.


Nikolas sorriu.


Da janela, via-se uma Brasília diferente daquela das fotografias antigas. A Esplanada continuava ali, e Niemeyer sobrevivera, embora alguns prédios agora exibissem enormes painéis eletrônicos com versículos bíblicos e mensagens oficiais.


No Congresso, uma faixa anunciava:


“POSSE PRESIDENCIAL — NIKOLAS FERREIRA — DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA E LIBERDADE.”


Ninguém parecia achar estranho.


Talvez porque, naquele Brasil, quase ninguém mais se lembrasse de quando as coisas haviam começado a ficar estranhas.


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Os historiadores costumavam marcar 2026 como o começo.


Flávio Bolsonaro vencera Lula numa eleição apertada. Na primeira semana no Planalto, anunciou o que chamou de “pacificação nacional”. Vieram a anistia dos condenados pelo 8 de Janeiro, o indulto presidencial ao próprio pai e a reorganização das instituições.


Eduardo Bolsonaro voltou dos Estados Unidos em triunfo.


Allan dos Santos também.


O antigo Terça Livre tornou-se uma rede nacional de comunicação. Alguns anos depois, Allan assumiria o Ministério das Comunicações.


A cerimônia de posse teve transmissão obrigatória em cadeia nacional. Foi um sucesso de audiência — principalmente porque, naquele horário, não havia outro canal transmitindo coisa alguma.


A partir dali, o país aprendeu a chamar de normalidade aquilo que antes teria parecido impossível.


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As relações com Washington nunca tinham sido tão boas. Tão boas que, depois de uma reforma constitucional, o país adotou oficialmente o nome de Estados Unidos do Brasil.


O governo explicou que se tratava apenas do resgate de uma denominação histórica da República.


Depois veio o dólar.


O Real foi retirado de circulação após uma longa campanha segundo a qual uma moeda forte finalmente protegeria o brasileiro da inflação. As últimas notas de cem reais viraram item de colecionador.


Na Avenida Paulista, cambistas vendiam uma nota de Ayrton Senna por 40 dólares.


A mudança monetária foi apresentada como modernização. A mudança religiosa, como tradição.


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O Estado continuava oficialmente laico.


A Constituição dizia isso, e ninguém tivera coragem de retirar o artigo. Apenas acrescentaram outros dezessete.


Na prática, cerimônias oficiais começavam com oração, repartições públicas tinham capelães e o ensino religioso passara a integrar a formação básica.


Nossa Senhora Aparecida deixou de ser reconhecida oficialmente como padroeira nacional. A decisão provocou manifestações que duraram três dias. No quarto, os canais de televisão pararam de falar no assunto. No quinto, parecia que nunca tinha acontecido.


Os terreiros tiveram destino menos silencioso.


Primeiro vieram as exigências administrativas. Depois, as inspeções. Em seguida, as denúncias de “perturbação da ordem espiritual”.


Depois, simplesmente, começaram a desaparecer.


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Na educação, a transformação foi ainda mais profunda.


As escolas cívico-militares haviam se tornado o padrão nacional. Toda segunda-feira, às sete da manhã, milhões de crianças formavam filas diante das bandeiras.


Nas universidades públicas, a autonomia universitária continuava existindo — desde que exercida dentro das normas da Lei Nacional de Neutralidade Ideológica.


Marx podia ser estudado, desde que acompanhado de um professor credenciado para explicar seus erros. Paulo Freire sobrevivia nas bibliotecas, geralmente na seção intitulada “Experiências Pedagógicas do Século XX”.


Milton Friedman era obrigatório. Mises também.


A disciplina “Empreendedorismo e Prosperidade” começava no sexto ano. No ensino médio, os alunos tinham Educação Financeira, Empreendedorismo Digital e uma matéria chamada Mentalidade de Vencedor I e II. Nas universidades, os calouros aprendiam Mises antes de cálculo.


O concurso público havia acabado. Segundo o governo, estabilidade produzia acomodação. O serviço público passou a trabalhar por metas, e cada funcionário recebeu uma classificação em estrelas no aplicativo oficial.


Abaixo de 4,2, o contrato podia ser rescindido.


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A saúde também mudara, embora o governo preferisse chamar aquilo de liberdade.


A vacinação infantil deixara de ser obrigatória anos antes. Quando começaram os primeiros surtos de sarampo, o Ministério da Saúde lançou uma campanha pedindo responsabilidade às famílias.


Depois veio a epidemia.


Os números oficiais diziam 312 mortos. Um consórcio independente de médicos falava em milhares. Dois meses depois, o consórcio deixou de existir.


O relatório final do governo recomendou “mais informação, menos alarmismo”.


Foi distribuído nas escolas.


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Curiosamente, nunca houve tantos especialistas no Brasil.


Coaches tornaram-se deputados, depois senadores. Alguns chegaram a ministros. Um influenciador que ensinava como acordar às quatro da manhã assumiu o Ministério do Trabalho.


O Ministério da Cultura foi incorporado ao Ministério do Empreendedorismo. O livro mais vendido do país, havia dezessete semanas, era uma nova edição de Do Mil ao Milhão.


Nas livrarias que ainda existiam, a seção de Ciências Humanas ocupava duas estantes.


A de desenvolvimento pessoal, três andares.


O país não perdera o gosto pelos livros. Apenas passara a preferir os que prometiam resultados mensuráveis.


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A imprensa também aprendera a se adaptar.


A antiga Rede Globo perdera sua concessão depois de um longo processo administrativo. Seu patrimônio fora dividido: parte dos estúdios virou sede da Empresa Nacional de Comunicação; outra parte foi comprada por grupos privados.


O antigo Projac transformara-se num enorme complexo de conteúdo cristão, reality shows empresariais e programas de competição.


O maior sucesso da televisão era O Sócio Brasil, no qual pequenos empresários disputavam investimentos diante de cinco bilionários.


Andréia Sadi abandonara o jornalismo. Corria a história de que tinha um quiosque em Copacabana, onde vendia biscoito Globo e mate.


Alguns turistas pediam selfies.


Ela sorria.


Nunca falava de política.


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O Supremo ainda existia. O prédio continuava exatamente no mesmo lugar.


Mas seis ministros tinham sofrido impeachment ao longo dos anos, e outros se aposentaram antecipadamente. As novas indicações passaram sem dificuldades pelo Senado.


O tribunal tornara-se mais discreto.


Muito mais discreto.


O Congresso, por sua vez, nunca parecera tão representativo — ao menos segundo os discursos oficiais. Havia pastores, militares, policiais, influenciadores e coaches em quantidade inédita.


Economistas eram raros.


Professores, mais ainda.


Sociólogos praticamente haviam desaparecido.


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Havia presos políticos?


O governo dizia que não. Havia apenas pessoas condenadas por crimes contra a ordem institucional, disseminação de informações desestabilizadoras e ataques à soberania nacional.


Era importante usar os termos corretos.


Nas redes sociais, todos aprenderam rapidamente. Algumas palavras simplesmente deixaram de ser escritas.


As pessoas conversavam sobre futebol, investimentos, Deus, academia e churrasco.


Política era assunto desagradável.


E perigoso.


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Naquela manhã de janeiro de 2039, porém, ninguém parecia preocupado com essas coisas.


Brasília estava em festa.


Nikolas terminou de ajustar a gravata. O assessor abriu a porta.


— Presidente, está na hora.


Ele respirou fundo.


Do lado de fora, milhares esperavam. Os sinos das igrejas tocaram, os caças da Força Aérea cruzaram o céu e as bandas militares começaram a tocar.


Na televisão, o locutor anunciou:


— Dentro de alguns minutos, o Brasil dará início a um novo capítulo de sua história.


Nikolas entrou no carro presidencial.


No caminho até o Congresso, passou diante de uma escola. As crianças estavam perfiladas no pátio, uniformes impecáveis, braços junto ao corpo.


A professora levantou a mão, e todas começaram juntas:


— Brasil acima de tudo…


O carro passou antes que Nikolas pudesse ouvir o restante.


Ele sorriu.


Numa banca de jornal próxima ao Congresso, havia apenas três revistas. Uma trazia Nikolas na capa:


“UMA NOVA ERA.”


Outra comemorava os excelentes números da economia.


A terceira ensinava:


“DEZ HÁBITOS DOS MILIONÁRIOS ANTES DAS CINCO DA MANHÃ.”


Ao lado da banca, sentado num banquinho de plástico, um velho lia escondido um livro cuja capa estava coberta por papel pardo.


Um menino perguntou:


— Que livro é esse, vô?


O velho olhou para os lados antes de responder:


— Machado de Assis.


O menino franziu a testa.


— Coach?


O velho ficou alguns segundos em silêncio.


— Quase isso.


E voltou a ler.


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Às quinze horas e quarenta e sete minutos, Nikolas Ferreira colocou a mão sobre a Constituição e prestou juramento como presidente dos Estados Unidos do Brasil.


Foi aplaudido durante sete minutos.


Às dezesseis horas, os mercados fecharam em alta. Às dezesseis e vinte, o dólar permaneceu estável — afinal, já era a moeda nacional.


Às dezessete horas, começou o culto ecumênico da posse.


Às dezoito, o novo presidente faria seu primeiro pronunciamento.


E, às dezenove horas, como acontecia todos os dias havia alguns anos, milhões de brasileiros receberiam simultaneamente no celular a mensagem oficial do governo:


“Você é livre.”


Ninguém respondeu.


Não era necessário.


O aplicativo já sabia que todos tinham lido.


Nello Morlotti 

Suinocultor !

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