*Aere Perennius — ou o Monumento do Açougueiro Improvável*
(crônica)
Eu acordei hoje com a insolência de Horácio me cutucando: exegi monumentum aere perennius. O romano dizia ter erguido um monumento mais duradouro que o bronze. Bonito isso. Ambicioso. E um pouco presunçoso, se me permite o latim.
Mas fiquei pensando que, se Horácio tivesse nascido em Caxias, talvez trocasse o bronze por outra matéria-prima mais nossa, mais quente, mais viva — talvez uma boa fraldinha, que dura menos, é verdade, mas deixa memória mais saborosa. Afinal, não é isso que a gente busca? Permanecer na lembrança de alguém como um corte bem feito, um cheiro de carvão aceso, uma frase que gruda?
O tempo, esse açougueiro invisível, nos fatia em dias. E a gente tenta sobreviver fazendo o possível para não virar moída de segunda.
Hoje, andando pela Travessa BR, vi um pedaço de muro descascando e achei bonito: parecia tentar resistir ao esquecimento. Pensei no bronze. O bronze não descasca — mas o muro vive mais com a gente. Ele apanha, pega sol, vira testemunha. Talvez o segredo da eternidade esteja no que sofre, não no que brilha.
Horácio, coitado, não sabia o que era um país onde até decreto municipal enfrenta intempéries mais severas que a chuva devoradora do verso romano. Se soubesse, teria dobrado a aposta: “Exegi monumentum aere perennius et cartório resistente ao tempo.” Aí sim seria épico.
Eu também quis erguer meus monumentos. Uns dão certo — como quando encontro uma boa garrafa de vinho italiano que ainda não triplicou de preço. Outros falham — como tentar ensinar para a vida que ela devia ser mais educada com a gente nas segundas-feiras.
Mas, de tudo, aprendi uma coisa:
O que realmente dura não é o bronze.
É o gesto.
O pão dividido.
A carne entregue com a faca afiada e a honestidade no fio.
A assinatura feita com calma.
O sorriso da Pietra quando encontra Nutella escondida.
O espanto de Heitor diante de um motor.
E até o latim mal pronunciado, mas dito com orgulho, porque a palavra dita com vontade dura mais que monumento romano.
Talvez seja isso que eu deixe para o futuro:
um pequeno rastro de risos, vinhos abertos, cortes certificados, crônicas improvisadas e a velha mania de achar que tudo merece um pouco de poesia — até o frigorífico, até a planilha, até a vida que a gente tenta domar no laço.
E se algum dia alguém perguntar o que construí, respondo sem medo:
— Um monumento não de bronze, mas de histórias.
E histórias, meu amigo, o tempo não derrete.
*Nello Morlotti*
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