Cataratas, Cartolas e a Polenta do Retorno

Cataratas, Cartolas e a Polenta do Retorno*


Há algo de profundamente republicano em resolver o futuro do país entre uma polenta frita e um frango desossado. O MDB do Paraná entendeu isso com precisão cirúrgica: para anunciar o retorno de Álvaro Dias, não convocou o povo — convocou o apetite. Política, quando amadurece demais, perde o paladar para a rua e ganha gosto por restaurante tradicional.


O convite é de uma poesia involuntária: “Quem volta para casa não erra o caminho.”

De fato. O caminho estava bem sinalizado: Santa Felicidade, estacionamento fácil, vinho conhecido e água caindo forte para abafar qualquer lembrança incômoda.


O Cascatinha nunca foi o Niágara. Mas faz um barulho respeitável. A água despenca com convicção, como discursos antigos reciclados em novos panfletos. O som ajuda: ninguém escuta direito, todo mundo concorda, e o aplauso vem automático, como digestivo.


Eu conheci outro Cascatinha.

Um lugar onde a polenta de milho branco frita resolvia conflitos familiares sem necessidade de mediação. Onde experimentei o primeiro frango desossado da vida, esse avanço técnico que nos ensinou que até o que nasce com estrutura pode ser desmontado com elegância. E onde provei, ainda menino, a primeira taça de vinho Niágara — vinho que não se leva a sério, mas que sempre volta, exatamente como certas carreiras políticas.


A família Trevisan, vinda de um Treviso distante, mantém a liturgia. O restaurante e o Castelo Treviso, ao lado, formam um complexo ideal para batizados, casamentos e ressurreições partidárias. Ali, alianças são seladas com molho, não com programa. É o tipo de lugar onde ninguém pergunta por quê, apenas com qual acompanhamento.


Álvaro retorna ao MDB quase octogenário, com a serenidade de quem sabe que o calendário eleitoral tem memória curta e o eleitor gosta de rostos conhecidos — sobretudo quando eles aparecem sorrindo ao lado de uma travessa fumegante. O cálculo é simples: duas vagas ao Senado, águas correndo para algum lado, e quem conhece o rio sabe onde remar sem se molhar.


Ele foi jovem, foi hábil, foi construtor. Tinha a marca da casinha, do realizador. O Paraná talvez merecesse mais um mandato seu. Mas Álvaro escolheu Brasília — esse lugar onde o tempo não passa, apenas se acumula. Enquanto isso, o estado elegeu Beto Richa, depois Ratinho Jr., e o bonde da história passou fazendo barulho suficiente para ser ouvido até Santa Felicidade. Álvaro preferiu ficar sentado, olhando a paisagem do Planalto.


Mas coragem nunca lhe faltou.

Foi ele quem cutucou a CBF quando cutucar cartola era mais perigoso que mexer em vespeiro. A CPI da Nike irritou Ricardo Teixeira, contrariou Onaireves Moura e ensinou que, no futebol brasileiro, a bola corre menos que a vingança. A Taça de 2002 passou primeiro por Curitiba, como quem entrega um recado embrulhado em ouro: “Olha o que você não toca.” Futebol é o único poder no Brasil que não precisa se explicar.


E quando Álvaro contrariou Dom Cecílio do Rego Almeida, mexeu com algo ainda mais antigo. Dizem que o poderoso empresário rezou aos santos sicilianos — esses que não esquecem, não perdoam e trabalham em silêncio. Uma maldição lenta, elegante, dessas que não derrubam o homem, apenas o condenam a retornar sempre ao ponto de partida.


E aqui estamos.

No Cascatinha.

Com polenta, frango, vinho Niágara e água despencando forte, como se o rio dissesse: “Vai, volta, mas não avança.”


No fundo, a política brasileira talvez seja isso:

um almoço bem servido onde ninguém discute o cardápio, todos juram que agora é diferente, e a história — paciente — espera a sobremesa.


A água cai.

O barulho ajuda.

E a casa, como sempre, está aberta para quem sabe onde fica a mesa.


*Nello Morlotti*

Comentários