“A geração que trocou o ouvido pelo grave

 Outro dia me dei ao trabalho de abrir o “Top 10” do Spotify. Não foi curiosidade, foi imprudência. A mesma que leva o sujeito a provar um pastel de vento achando que é de camarão. O resultado é sempre o mesmo: frustração, um leve mal-estar e a certeza de que algo saiu errado no caminho da humanidade.


Aqui no Nordeste, então, a coisa ganha potência sonora. Não basta ouvir música ruim: é preciso que ela seja transmitida por paredões capazes de derrubar paredes, corações e, se bobear, o juízo crítico coletivo. A melodia não importa, a letra não importa, o ritmo não importa. O que importa é o grave. O grave é o novo sol: todos giram em torno dele.


E eu fico pensando, sem pose de erudito, sem afetação, só com uma tristeza bem-humorada: onde foi que a gente desaprendeu a ouvir?


Na minha casa, música era quase um membro da família. Minha irmã chegava da Savarin Discos com aqueles vinis debaixo do braço como quem trazia um evangelho novo. Era MPB, bossa nova, Ney Matogrosso, Secos & Molhados, Roberto Carlos em fase boa, Gil, Caetano, Gal, Bethânia. A agulha descia no disco e a casa mudava de atmosfera. Não era barulho. Era ambiente. Era conversa sem palavras.


Depois vieram os Paralamas, os Titãs, e, por que não, o Ultraje a Rigor, que ensinou que humor também podia ser inteligência musical. Até banda local, como Dr. Silvane & Cia, tocava na sala como se fosse importada de Londres. A gente não sabia, mas estava sendo educado sem perceber.


A idade foi chegando, e junto com ela vieram os conflitos internos — esses professores invisíveis. O rock abriu suas portas: Ramones, Sex Pistols, The Clash. Punk não era só grito, era atitude, era crítica social, era poesia com jaqueta de couro.


Aí, como quem descobre um porão cheio de tesouros, vieram Bach, Mozart, as óperas, os tenores. Veio o cinema, com Nino Rota, Ennio Morricone, trilhas que ensinavam mais sobre a alma humana do que muita aula de filosofia. Vieram Elvis redescoberto, Sinatra, Tony Bennett, o swing elegante de um mundo que sabia que música também é postura.


E como se não bastasse, a África apareceu no meu caminho com Sofya Nzau e tantas outras vozes que não gritam: convocam.


Meu repertório virou uma espécie de mapa-múndi emocional. Não por vaidade, mas por curiosidade. Por escuta.


E então eu olho para os paredões tocando seus hinos de três acordes, suas letras que parecem escritas por um liquidificador emocional, e me pergunto: quem ensinou esse povo a gostar disso?


Não é que falte talento. Falta escuta. Falta repertório. Falta alguém em casa que diga: “senta aqui e ouve isso comigo”. Falta o ritual do vinil, o respeito pela canção, a ideia de que música não é só fundo sonoro para embriaguez coletiva.


Hoje a música virou acessório. É como a buzina do carro: serve pra fazer barulho e marcar território. Quanto mais alto, melhor. Quanto menos sentido, mais moderno.


Não quero ser o velho chato que diz “no meu tempo era melhor”. Não era. Era diferente. Mas havia curiosidade, havia silêncio para ouvir, havia espaço para a descoberta.


Talvez o problema não seja o paredão. Talvez seja o que deixou de tocar dentro de casa antes dele chegar.


Porque quem cresce ouvindo Bach, Caetano, Morricone, The Clash e Gal Costa dificilmente aceita que sua trilha sonora da vida seja feita só de grave, auto-tune e refrão vazio.


Música é memória. É afeto. É identidade.

Quando vira apenas ruído, alguma coisa na gente ficou surda antes.


E isso, meu amigo, não se resolve aumentando o volume.


Nello Morlotti


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