Momento Pirazinoso !

🍷 A República Pirazínica



Outro dia, girando a taça de um Cabernet Sauvignon, senti aquele leve aroma de pimentão verde. Nada agressivo. Apenas o suficiente para lembrar que a uva, às vezes, tem pressa demais de virar vinho.


Pirazinoso.


Palavra bonita. Parece nome de vereador do interior.


— “Com a palavra, o nobre Pirazinoso!”


Mas não. É o cheiro da imaturidade.


E ali, na borda da taça, pensei no Paraná.





🌱 A política também tem pirazina



Na viticultura, quando a uva amadurece direito, o vegetal cede lugar à fruta. O verde vira rubi. A acidez encontra equilíbrio.

Quando não amadurece, sobra pimentão.


Na política regional do PR, a coisa não é muito diferente.


Estamos naquele momento curioso de sucessão do governador Ratinho Junior. O vinho está no barril, mas já tem gente com a taça na mão.


Alguns nomes surgem com perfume de madeira nova, discurso ensaiado e Instagram afinado. Outros aparecem com aquele aroma que lembra folha de tomate esmagada entre os dedos.


Promessa verde.

Ambição verde.

Projeto verde.


Pirazinoso.





🍇 A sombra no vinhedo



No mundo do vinho, excesso de sombra aumenta a concentração de pirazinas.

Na política, excesso de padrinho faz o mesmo efeito.


Quando o candidato cresce mais à sombra de um grupo do que ao sol da própria história, o aroma denuncia. Falta maturação própria. Falta estrada. Falta safra difícil.


E o eleitor — que hoje prova tudo como um sommelier desconfiado — sente.


Ele pode não saber o nome técnico.

Mas sabe quando algo está verde.





🏛️ O terroir paranaense



O Paraná não é um vinhedo qualquer. É um estado que mistura cooperativismo forte, agronegócio robusto, indústria organizada e uma classe média exigente.


Não aceita qualquer vinho de mesa rotulado como reserva.


A sucessão de Ratinho Junior não será apenas sobre continuidade. Será sobre maturação.


Quem tiver fruta madura, estrutura e acidez equilibrada pode evoluir na garrafa.


Quem estiver excessivamente pirazinoso talvez precise de mais tempo no barril.


Ou mais sol.





🍷 E o que aprendemos com o pimentão?



Que o aroma vegetal não é necessariamente defeito.

No Cabernet Franc, pode ser charme.

No Sauvignon Blanc, pode ser frescor.


Na política, alguma dose de juventude e vigor também é saudável.


O problema é quando só há verde.


Quando não há fruta.


Quando não há estrutura.


Quando o discurso ainda não fermentou.




Fico imaginando a próxima eleição como uma grande degustação às cegas no Palácio Iguaçu.

Taças numeradas.

Candidatos decantados.

E o povo girando, cheirando, analisando.


— “Hum… notas de ambição precoce.”

— “Leve toque de marketing.”

— “Boa estrutura, mas precisa de mais garrafa.”


No final, como sempre, vence o vinho que parece mais equilibrado.


E o Paraná, meu caro, já provou safras demais para cair em vinho verde demais.


Sirvo mais um gole.

E penso: maturação é tempo, sol e caráter.


Sem isso, sobra apenas pimentão.


E ninguém quer governar um estado com gosto de salada crua. 🍷


Nello Morlotti 


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