O Fiscal do Afeto e a Inflação Moral
Brasília sempre teve seus fiscais. Uns de gravata, outros de prancheta, alguns de toga — e, em momentos históricos mais ousados, até fiscais improvisados, surgidos do nada, movidos por uma indignação súbita contra o aumento de preços.
Nos tempos do Plano Cruzado, o país acreditou, por alguns meses, que a inflação poderia ser contida no grito. Donas de casa viraram fiscais, supermercados viraram trincheiras e o brasileiro, por um breve instante, sentiu-se parte de uma epopeia econômica. Era bonito. Ingênuo, mas bonito.
Décadas depois, o Brasil evoluiu. Sofisticou-se. Refinou seus mecanismos de controle social. E, como não poderia deixar de ser, atualizou também seus fiscais.
Surge então, em plena Brasília, o novo guardião do equilíbrio econômico nacional. Não mais atento ao preço do arroz ou ao valor do combustível — esses já perderam a graça —, mas vigilante de um mercado mais sutil, mais sensível, mais… subjetivo.
O mercado dos afetos tarifados.
Ali, longe das planilhas do Banco Central e das atas do Copom, um deputado decide agir. Não por ideologia, não por projeto de lei, não por comissão especial. Mas por aquilo que move as grandes transformações: o desacordo no preço.
Há, nas imagens, um zelo técnico que impressiona. Um senso de justiça econômica que beira o heroísmo. O homem não grita — ele audita. Não discute — ele regula. Não reclama — ele intervém.
É o Estado brasileiro, finalmente, chegando onde nunca chegou.
Imagino, com certo entusiasmo institucional, os desdobramentos inevitáveis: a criação de um índice oficial — o IPAF (Índice de Preços do Afeto). Reuniões emergenciais para conter a volatilidade do setor. Economistas debatendo, em horário nobre, se houve abuso, reajuste indevido ou apenas desalinhamento contratual.
Tudo muito técnico. Tudo muito sério.
E o Brasil, esse velho cronista de si mesmo, observa. Entre o riso e o espanto, entre a vergonha e a familiaridade. Porque, no fundo, há algo de profundamente nacional nisso tudo.
Não resolvemos a inflação — mas seguimos fiscalizando. Não organizamos o sistema — mas questionamos o preço. Não planejamos o futuro — mas reagimos ao instante com uma convicção quase heroica.
Talvez seja esse o nosso verdadeiro índice de desenvolvimento: a capacidade de transformar qualquer constrangimento em narrativa, qualquer episódio em alegoria, qualquer quiprocó em política pública imaginária.
E assim seguimos.
Um país onde até os escândalos carregam uma certa vocação pedagógica. Onde sempre aparece alguém disposto a levantar a voz — ainda que no lugar errado, pelo motivo errado, mas com a intensidade certa.
No fim, resta uma dúvida sincera, quase técnica:
A inflação subiu… ou foi apenas o mercado se ajustando?
Nello Morlotti
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