Vendedores de alfajor e a XV !

 


Deus salve a XV (e devolva os alfajores)



Há ruas que são ruas.


E há ruas que são quase uma autobiografia da cidade.

A Rua XV de Novembro, em Curitiba, sempre foi assim: um calçadão onde a cidade se olhava no espelho e às vezes até arrumava o cabelo.


Quem frequentou a XV em seus anos mais vivos sabe do que estou falando.


Ali, perto do bondinho, havia uma pequena academia de belas-artes ao ar livre. Crianças pintavam com tinta guache em folhas esticadas no chão, como se estivessem inaugurando o impressionismo curitibano. Pais orgulhosos observavam, algum turista fotografava e um sujeito inevitavelmente opinava:


— Esse azul tá muito azul.


Mais adiante, começava o parlamento informal da cidade. Barracas de candidatos, partidos, movimentos e correntes ideológicas disputavam o eleitor como vendedores de feira disputam fregueses. Havia quem defendesse o socialismo, quem defendesse o mercado, e quem defendesse apenas o direito sagrado de distribuir panfleto.


A democracia, ali, era de calçada.


E havia personagens.


Na esquina da Monsenhor Celso, por exemplo, reinava uma figura que todo curitibano antigo conhece: a mulher da Borboleta 13. Sempre elegante à sua maneira, sempre presente, como se fosse uma espécie de guardiã discreta daquele pedaço da rua. Se você passasse por ali dez vezes na semana, nove vezes ela estaria lá.


Curitiba tem dessas coisas: seus próprios monumentos humanos.


E havia também os vendedores de alfajor.


Confesso que eram insistentes. Um pouco demais, talvez.


— Amigo… alfajor argentino… artesanal…


Você dizia não. Caminhava dez passos. Outro surgia.


— Amigo… alfajor…


Era quase um teste espiritual. Mas, curiosamente, quando sumiram, percebeu-se que faziam falta. A XV sem alfajor ficou como cinema sem pipoca.


Entre uma caminhada e outra, a rua também oferecia pequenos consolos gastronômicos. A coalhada da Schaffer, por exemplo — fresca, honesta, curitibana — que hoje sobrevive heroicamente apenas no turquinho da Osório, como um segredo bem guardado entre iniciados.


E havia também a Confeitaria das Famílias, instituição que alimentou gerações de estudantes, namorados, aposentados e conspiradores políticos de café com leite.


Mas a cena gastronômica da XV… bem… essa merece outro capítulo. E talvez outro estômago.


O fato é que a XV era uma espécie de teatro permanente. Artistas de rua, músicos, estudantes, filósofos improvisados, aposentados especialistas em xadrez e política internacional — todos dividiam aquele palco de pedra portuguesa.


Hoje o elenco mudou um pouco.


A rua continua cheia, mas agora predominam pregadores, panfletos religiosos, terços erguidos e sermões improvisados entre uma loja e outra. Entre a tradição da TFP e o entusiasmo neopentecostal, a XV virou algo próximo de um congresso permanente sobre a salvação da alma.


Nada contra a salvação da alma, diga-se.


Mas às vezes sinto falta da salvação do bom humor.


Daquelas tardes em que um artista pintava, um músico tocava, alguém discutia política e outro discutia futebol — e todos acabavam concordando apenas numa coisa: era hora de um café.


Talvez as cidades passem por ciclos.


Hoje a XV está em fase espiritual. Amanhã, quem sabe, volta a ser boêmia, artística, bagunçada e deliciosamente inútil — como toda grande rua deve ser.


Enquanto isso, faço apenas uma pequena oração urbana.


Nada muito teológico.


Algo simples, quase gastronômico:


Deus salve a Rua XV.


E, se não for pedir demais…

devolva os vendedores de alfajor.



Nello Morlotti 

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